Fragmentos: Márcia Costa, Patrícia Galvão e o livro ‘De Pagu a Patrícia’

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As palavras de Pagu resultaram em seis livros. Outros nove títulos se referem à Pagu. Contudo, nenhum a retrata como Patrícia, quando ela decide partir para Santos e revolucionar o cenário cultural do município. É isso que leva a jornalista Márcia Costa a lançar a obra ‘De Pagu a Patrícia – o último ato’. A sessão será hoje (8/dez), às 16h, na Pinacoteca Benedito Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15/Santos), com bate-papo da autora e de Geraldo Galvão, Lúcia Teixeira Furlani e Sergio Mamberti, com mediação de Flábio Viegas Amoreira. O encontro também terá atrações musicais, como o show de Alice Mesquita, do pianista Tarso Ramos e a performance ‘O Jardim de Patrícia’, do Núcleo de Pesquisa do Movimento – Imaginário Coletivo de Arte (Célia Faustino, Márcio Barreto, Maria Tornatore, Marília Fernandes e Alessandro Atanes).

Não se trata de uma biografia, mas de uma contribuição para a História Cultural dos anos 50 e início dos 60. A pesquisa iniciou-se durante o curso de mestrado (2006-2008) em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, onde Márcia Costa estudou a coluna Literatura, produzida por Patrícia em A Tribuna, e se estendeu com o estudo da relação de Patrícia com o teatro, registrada na coluna Palcos e Atores, e no levantamento dos fatos históricos que compuseram a cena cultural em Santos e no Brasil daquele período. O projeto do livro foi selecionado pelo Fundo Municipal de Cultura de Santos, que financia a publicação. A obra tem prefácio do compositor Gilberto Mendes, amigo de Patrícia, capa produzida pelo artista plástico Fabrício Lopez (xilogravura) e orelha assinada pelo escritor Flávio Viegas Amoreira.

No jornal A Tribuna Patrícia imprimiu as marcas do seu último ato, onde estão registradas a produção artística da época sob uma visão moderna e cosmopolita. A análise dos artigos de Patrícia e as entrevistas com testemunhas de época permitiram a Márcia narrar a força de Patrícia na luta apaixonada pelo teatro, marcada pela participação na vitoriosa campanha pela construção do Teatro Municipal, na criação da União de Teatro Amador de Santos, no apoio à realização de importantes festivais, no incentivo aos jovens talentos como Plínio Marcos, na formação de grupos amadores e na divulgação e na produção de peças de vanguarda, como ‘Fando e Lis’ (Fernando Arrabal) e ‘A Filha de Rappaccini’ (Octavio Paz). Confira abaixo a ‘entrevista’ com Márcia, trechos de seu livro e trechos de obras de Patrícia Galvão.

Márcia Costa – Eu estava fazendo mestrado em jornalismo, quando passei a ler a seção de literatura de Patrícia Galvão no jornal. Cada texto é uma aula densa em que ela cita com quem ela conviveu, como Sartre. E dai surgiu a vontade de fazer esta contribuição, este livro.

Patrícia Galvão – O escritor moderno é uma aventura humana. O escritor da aventura não teme a aprovação ou a reprovação dos leitores. (…) O que lhe importa é abrir novos caminhos à arte, é enriquecer a literatura com germens que, à semelhança dos germens descritos por Novalis, venham talvez a fecundar a literatura dos próximos 100 anos.

Márcia – E daí comecei a estudar a relação de Patrícia com o teatro de Santos, e foi quando ela influenciou na formação de vários artistas. Nenhum outro segmento artístico de Santos recebeu tanta influência de Patrícia como o teatro. (…) Foi em seu festival que estreou o Plínio Marcos com ‘Barrela’.

Patrícia – Quero ir bem alto… Bem alto… Numa sensação de sabedoria, superioridade… É que do outro lado do muro, tem uma coisa que eu quero espiar. (…) É preciso sempre, como dizia Sigmund Freud, um dos mestres da renovação mental, despertar o sono do mundo.

Márcia – Toda a produção teatral de vanguarda era apresentada nos dois grandes eventos que marcaram a história do teatro, realizados graças ao empenho de Patrícia. O Departamento Cultural de A Tribuna promovera, em 1958, em conjunto com a Comissão Estadual de Teatro, o I Festival de Teatro Amador para Santos e Litoral, considerado o mais antigo do gênero em atividade no Brasil. Ela sempre procurava incentivar a produção. Em 1959 (mesmo ano em que a cidade sediara o II Festival Nacional de Teatro de Estudantes), Patrícia, vendo ressurgir o entusiasmo dos estudantes diante da aproximação do segundo festival regional, alertava para que a chama não se apagasse após o fim do evento, e sobre a necessidade de se manter e criar uma tradição de teatro.

Patrícia – Hoje que Santos recebe estudantes de teatro, teatros de estudantes, a tentativa de há três anos merece ser recolhida num registro; não o consolo de uma frustração, mas a justificação de que estávamos acertados quando propagávamos entre moças e moços de nossas escolas o amor às coisas do teatro, essa ponte amável da cultura e da arte para a vida.

Márcia – Tinha vários pontos culturais da Cidade que Patrícia Galvão costumava frequentar: o Clube de Arte, o Clube do Cinema, a Aliança Francesa, o próprio Departamento de Cultura do Jornal A Tribuna; além dos bar Chic, Regina e Bexiga. (…) A casa de Pagu era um reduto cultural, em que quase sempre os artistias iam visitá-la. Lá, ela tinha uma biblioteca com oito mil livros.

Patrícia – Abri meu abraço aos amigos de sempre. Poetas compareceram, alguns escritores, gente de teatro, birutas no aeroporto. (…) Há muita gente interessada no teatro, e é preciso fazer-se pelo teatro em Santos uma coisa grandiosa: torná-lo uma realidade.

Márcia – Por meio de visitas, correspondências, entrevistas, encontros, resenhas ou envio de livros, Patrícia e Geraldo [Ferraz, seu marido] mantiveram contato com Sábato Magaldi, Clarice Lispector, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Casais Monteiro, Cacilda Becker, Sérgio Milliet, Flávio de Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Paulo Emílio Sales Gomes, Fernando Arrabal, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Eugène Ionesco, entre muitos outros citados em seus textos, sem contar o círculo de amigos que Ferraz havia feito nas artes plásticas. O afetuoso apoio do companheiro foi essencial diante dos problemas de Patrícia com o alcoolismo e da sua crescente debilitação física. Assim foi até o diagnóstico de câncer no pulmão, em 1962.

Patrícia – Agora saio de um túnel, tenho várias cicatrizes, mas estou viva. (…) É preciso na verdade, como dizia Rilke, sofrer como homem e como mulher e ter as alegrias mais profundas da vida, para se ter o poema.

E a vida de Patrícia Galvão, poesia, acha-se hoje também nas mãos de Márcia Costa e de um trabalho riquíssimo de pesquisa que busca humanizar o mito dessa mulher de responsabilidades e liberdades. Agora vê se eu tô lá na esquina.

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