Entrevista: Paula D’Albuquerque comenta o universo de ‘Negrinha’

Inspirado no conto homônimo de Monteiro Lobato, ‘Negrinha’ encerra temporada neste sábado (24/nov), às 22h, na Vila do Teatro (Praça dos Andradas/Santos). O espetáculo da Oficina do Imaginário tem direção de Paula D’Albuquerque e leva ao palco Hiran Araújo, Natália Mendes e Priscila Calazans, com músicas de Zero Beto Freire.

A peça conta a história de Negrinha, uma criança nascida na senzala, que fica órfã aos 7 anos e a partir daí é criada como coisa. Sofrendo maus tratos e humilhações, Negrinha descobre-se gente ao ver pela primeira vez uma boneca, o que muda o rumo da história. Executada por 3 atores e 8 músicos, a narrativa é encenada ao ar livre, com iluminação feita apenas pela luz das velas. Há uma interação sensorial dos atores e músicos com a plateia, trazendo o conto para uma reflexão atual, sempre através do campo lúdico. Confira a entrevista com a diretora Paula D’Albuquerque:

1) Quando você teve contato com o conto ‘Negrinha’ pela primeira vez? O que mais lhe atraiu para querer levá-lo aos palcos? Bem, “descobri” ‘Negrinha’ pesquisando textos de Lobato para trabalhar em uma escola, que tinha esse projeto temático… Quando li o conto, me apaixonei, me identifiquei e, na hora, sabia que o encenaria. Deixei ressoar um tempo em mim, e, quanto mais caminhava pelas ruas, lia os jornais, mais sentia que ‘Negrinha’ estava por aí. Aí foi só captá-la.

2) Este conto foi escrito por Monteiro Lobato há quase 100 anos. Ao abordar sobre as relações desiguais em uma era escravocrata, ele ainda pode ser considerado atual? Olha, recentemente, por coincidência ou não, saíram muitas publicações sobre essa obra (o livro ‘Negrinha’, onde esse é um dos contos), apontando como racista, sexista, ista, ista…. O conto retrata uma sociedade pós-abolição, onde a mentalidade maniqueísta de superior-inferior permanece. Na minha leitura, há um sarcasmo, uma ironia nas palavras, com comentários do tipo “essa indecência de negro igual a branco”, e até uma denúncia, como em “o 13 de maio tirou-lhe das mãos o chicote, mas não lhe tirou da alma a gana”. Não quero discutir o ideário de Lobato, quero discutir o residual dessa mentalidade em pleno século XXI.então: sim, estamos falando de algo atual.

3) O espetáculo tem tanto atores, quanto músicos. Quais são os instrumentos e canções utilizadas para compor este teatro? De início era um monólogo, ampliado para três atores. A tríade que tem uma forte simbologia. Por mais que todos cantem, fomos sentindo a necessidade daquele algo a mais. Convidei o Zero Beto – um grande amigo e excelente músico – para dirigir musicalmente o espetáculo, pesquisamos a música brasileira do início do século passado, e juntamos isso com cantigas tradicionais infantis e, claro, um pouco de macumba! Utilizamos tanto instrumentos clássicos como piano, alaúde, passando pelas percussões de influência afro e objetos de cena que agregam na produção sonora: xícaras, chaleiras, vidros, bacias, água, tudo vira música.

4) A Oficina do Imaginário escolheu fazer uma peça fora do palco convencional, mais próximo do espectador. O desafio de atrair a plateia ainda é maior com essa proposta? E como ela consegue interagir com as personagens? Não sei bem te dizer se “escolhemos” fazer fora do palco. Acho que o espetáculo tem esse grito próprio, essa transcendência. Fomos ensaiando em diversos locais. Sempre que possível, convidávamos alguém pra assistir, e, entre uma conversa e outra, percebemos que um lugar definido não correspondia às imagens que trazíamos. Estamos fazendo um teatro que dialoga com o local, que se transforma de acordo com as arquiteturas. Quanto à plateia… Bom, por enquanto, estamos tendo uma boa resposta do público. Não fazemos um teatro interativo nos moldes convencionais, buscamos uma interação através do olhar, do cheiro, algo próximo de uma experiência sensorial, uma troca.

5) Vários elementos usuais noutros séculos compõem ‘Negrinha’, como máscaras e velas. Quais foram as referências utilizadas para conceber a peça? No decorrer dos ensaios fomos acrescentando diversos elementos, compondo um conjunto visual-sensorial. Nossa pesquisa foi a partir dos caminhos que o próprio texto deu, com muitas ramificações que passaram desde os elementos coloniais, a influência francesa, até os dias de hoje com a arte de rua e o hip hop. A peça tem quatro etapas. Iniciamos com figurinos que são as próprias roupas que os atores estão usando naquele dia, e a partir daí é feita a desconstrução da imagem. Também recorremos às imagens arquetípicas, que despertam nossa ancestralidade, símbolos que transitam por nós o tempo inteiro. A concepção da peça é uma “feijoada”, uma mistura de restos que dá um bom caldo.

6) No conto de Monteiro Lobato, a protagonista vê uma boneca pela primeira vez. E na sua infância? Qual era a sua boneca ou seu brinquedo preferido? (Risos) Meu brinquedo favorito? Bom, quando brincava de boneca, emprestava tudo que tinha e “roubava” uns objetos da cozinha pra me divertir… Acho que era uma criança “grotowiskiana”… (Risos) Mas o que eu gostava mesmo era de brincar no meu pebolim!

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