Entrevista: A transexualidade de Renata em ‘Dentro de Mim mora Outra’

Diretora e maquiadora teatral, a transexual Renata Carvalho caminha dos bastidores ao palco num monólogo que traduz sua própria vida. ‘Dentro de Mim mora Outra’ estreia na Tribal Club (Rua Júlio de Mesquita, 165/Santos) no dia 27/out, às 22 horas, e permanece em cartaz no local todos os sábados até 1º de dezembro. Nas três primeiras semanas, o ingresso custará R$ 5.

A peça evidencia que a transexualidade não se trata de uma categoria natural do ser humano, mas de uma percepção moderna de um fenômeno típico e recorrente da diversidade sexual humana comum em muitas culturas. Com dramaturgia de Ronaldo Fernandes e direção de Maria Tornatore, o espetáculo da Cia. Ohm de Teatro é inspirado nas experiências de Renata. A montagem conta com músicas de Julinho Bittencourt e Marcos Canduta, figurino de Kadu Veríssimo e produção de Miriam Vieira.

Segundo a diretora, Maria Tornatore: “o resultado estético desta obra artística reinterpreta realidades, revisita a perda de nossa coerência simbólica, quando traz à cena a procura do significado de nossas existências. Tudo isto através da singularidade de uma história humana”.

Para o autor, Ronaldo Fernandes: “a história tem como objetivo mostrar a coragem e a força necessárias para as transformações e correções do rumo de nossas vidas. Às vezes, para não morrer, é preciso se transformar. “O que a lagarta chama de fim do mundo, o homem chama de borboleta” – Richard Bach”. Confira abaixo a entrevista com a atriz  que inspirou a peça, Renata Carvalho.

1) Como surgiu a ideia deste espetáculo? Como o círculo de pessoas que convive com você reagiu ao saber que faria uma peça sobre você? Bom, o espetáculo nasce da ideia do espetáculo que fiz como atriz chamado ‘Nossa vida como ela é’ (2008) dirigido pela Maria Tornatore também, baseado no contos de Nelson [Rodrigues] no qual colocávamos a nossa vida. Desta cena, veio a vontade de falar mais, e as pessoas ficavam curiosas, perguntavam. Isso foi me aguçando e nasce o ‘Dentro de mim mora outra’. Sobre a  reação das pessoas, alguns acharam corajoso, outros uma loucura, mas todos têm a curiosidade de saber como uma transexual pensa, vive e enfrenta o preconceito.

2) Renata, até que ponto há as experiências de sua vida nas cenas? Há ficção? E quais foram as referências (livros/peças/filmes) para criar as cenas? Bom, a minha vida esta presente o tempo todo na peça. Conto tudo sem pudores, mas claro que é uma vida com a lupa do teatro. As cenas foram todas discutidas entre Maria, Ronaldo, Miriam e eu. Nossas referências são as experiencias de todos no teatro, afinal todos são diretores [respectivamente eles dirigem espetáculos na Cia. Taetro de Teatro, Tescom, Cenicomania e Ohm de Teatro]. Mas não tem algo específico. Usamos mais frases como do Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector entre outros escritores.

3) Pode descrever temporalmente como foi a montagem da peça? Qual a sua reação de ter alguém escrevendo e outrém dirigindo a sua própria vida? Bom, a ideia nasce em 2010 quando proponho este espetáculo a Maria Tornatore, Ronaldo Fernandes e Miriam Vieira, e todos compram a ideia. Nos escrevemos no Proac LGBT, fomos contemplados e o projeto toma corpo. É dificil falar da sua vida, até porque tem coisas que eles tiraram da minha memória que eu fazia questão de esquecer. Foi um trabalho difícil, de se autoconhecer, pois tocamos em temas que não é facil para mim estar falando. Mas tive que quebrar esta barreira, e me aceitar, pois é a minha historia. É complicado você ver pessoas discutindo de como contar a sua vida na visão deles. Tive que me desapegar, pelo menos tentei ao fazer este trabalho. Mas todos eles tiveram e tem a delicadeza de me deixar a vontade em cena, bem confortável.

4) Neste seu monólogo há espaço para o humor, ou você pretende fazer o público refletir pelo viés dramático? Claro que tem espaço para o humor, minha vida tem muita graça (risos). Até porque o que para mim é um drama, no olhar do outro pode ser uma comédia.

5) E, afinal, por que você se chama Renata? Então, quando descobri que não era como nasci, nasce a Drag Sandy Sabatelly, que, por sina, descobre a travestilidade. Quando me vi como uma transexual, não queria mais usar meu nome de drag até por que a encarei como uma personagem. Queria algo que soasse mais feminino, que não tivesse dubiedade. E nasce Renata, que significa renascida e tem tudo a ver comigo, pois com ela eu renasci. Tirei a outra que morava dentro de mim. Ela agora está mais viva do que nunca.

2 pensamentos sobre “Entrevista: A transexualidade de Renata em ‘Dentro de Mim mora Outra’

  1. Renata Carvalho é esse ser humano lindo mesmo! Uma transversalidade de gênero, causa e efeito. Uma artista divina, aplicada, generosa e transgressora. Ela sabe que é isso que penso de seu trabalho desde antes do nosso tempo de ” Nossa vida como ela é”. Uma alma inquieta, que nos emociona pela coragem, pela delicadeza e pela força contida. Parabéns minha querida amiga por mais este passo em sua linda jornada. Os desafios existem e sei que hoje, essa Renata é ainda muito mais forte do que a que começou este projeto, e que o será sempre.
    Com certeza prestigiarei mais este trabalho de pessoas que admiro muito: Maria, Mirian, Kadu, Ronaldo… Muito sucesso a todos e muita luz pra voce Renata Carvalho!

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