Opinião: Poucos prefeituráveis têm propostas culturais para Santos

Acompanhei na tarde deste sábado o inédito debate dos prefeituráveis de Santos sobre políticas públicas culturais em evento promovido pelo 10º Curta Santos – ressalto Ricardo Vasconcellos, Junior Brassalotti e Zé Claudio Pimentel que puderam tornar possível este momento. Mais de trezentas pessoas se proporam a assistir presencialmente ou virtualmente ao debate mediado pelo jornalista Gustavo Klein. Provavelmente esperando escutar as propostas dos candidatos para a área cultural. Não escutei mais que meia dúzia de propostas e compromissos. Detalho, na minha visão, os pontos discutidos no debate.

APRESENTAÇÃO DOS CANDIDATOS. Durante o primeiro bloco, cada um dos nove prefeituráveis fizeram suas considerações iniciais. Todos deram sua versão sobre o que é cultura, até aí é uma visão pessoal. Mas alguns candidatos já deslizam ao comentar sobre políticas culturais. Luiz Xavier (PSTU) erra nos números do orçamento municipal da Secult (em vez de 2%, diz que foi 0,1%); Nelson Rodrigues (PSL) fala de que o movimento cultural está distante do Concult (justamente o movimento elegeu seis delegados e têm boa relação com a presidência).

Outros candidatos discorrem o senso comum. O Prof. Fabião (PSB) disse que é viciado em cultura; O Jama (PRTB) afirmou aliar o turismo e a cultura ao em um circuito artístico (mesmo já havendo museus, programações nos teatros da Orla e Centro justamente voltados ao turismo); E a Eneida Koury (PSOL) generalizou ao dizer que o poder público financia trabalhos pontuais (embora semanalmente haja programação musical e teatral no Centro e Orla, além de manutenção de cursos livres), mas não disse como fazer então as tais ações permanentes. Pelo menos, propôs em seguida que o Conselho Municipal de Cultura (Concult) seja deliberativo.

Mais compromissos também foram assumidos neste momento. Sérgio Aquino (PMDB) se comprometeu a fazer uma nova legislação do Fundo de Assistência à Cultura (Facult), embora não diga as mudanças. Já Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) defendeu novos cursos de capacitação para artistas, como cursos para aderecistas, cenógrafos e iluminadores (esqueceu de outros segmentos culturais). Por sua vez, Telma de Souza (PT) e Beto Mansur (PP) citaram suas ações – a deputada estadual relembrou as verbas a eventos culturais, como também a criação e democratização de equipamentos e eventos, com uma preocupação maior à classe artística, enquanto o deputado federal ressaltou os restauros de praças, linhas de bonde, teatros, atentando-se aos patrimônios da Cidade.

CANDIDATOS QUESTIONAM CANDIDATOS. Igual pegadinha de vestibular, candidatos se alfinetaram. Paulo Alexandre Barbosa não opinou sobre o escasso orçamento estadual da Secretaria Estadual de Cultura (0,58%) e sua falta de incentivo a muitos artistas locais durante a Virada Cultural (a Trupe Olho da Rua já foi contratada por dois anos pelo Estado para esse evento), mas falou de reabrir equipamentos públicos e o projeto Mercado Criativo na área em torno do Mercado Municipal, para fomentar atividades de geração de renda na área de cinema (já há as Oficinas Querô) e de outras áreas, mas que em nada correspondem à produção artística.

Eneida, também falou de criar um centro cultural na região (apesar de, em 20 minutos, ser possível os moradores da região irem a outros centros públicos, como Guarany, Coliseu e a fechada Cadeia Velha), como também nos bairros do Marapé, Macuco e Zona Noroeste (onde já há espaço no Centro da Juventude). Junto ao Luiz Xavier, reclamou da terceirização da cultura em outras partes do Brasil (esqueceram de debater questão local).

Fabião e Nelson pouco proporam neste bloco, generalizando a cultura. O primeiro falou da falta de transparência do orçamento do governo e o outro complementou que é necessário uma gestão participativa – nenhum deles respondeu como reverter isso. Jama também pecou, descreveu a arte de Paris, Nova York, São Paulo e Rio, perguntou onde estava Plínio Marcos (o saudoso dramaturgo faleceu em 1999) e, quanto a Santos, disse que trabalharia em conjunto as pastas de Educação e Cultura, mas com propostas muito generalizadas, como incentivo à arte e leitura (o que já é implantado nas escolas municipais). Já Telma, ao exemplificar a gestão de Marta Suplicy na capital, prometeu implantar Centros de Extensão Unificada (CEUs) à população (não citou se há diferença com os Centros de Ações Integradas espalhados pela Cidade). Pelo menos, garantiu a adesão de Santos ao Sistema Nacional de Cultura (SNC).

Sobre a cultura, Beto também generalizou ao dizer que a arte pode libertar os jovens das drogas e que é necessário haver bom gestor público na Secult (logo, se o atual secretário Carlos Pinto foi indicado por ele ainda quando prefeito, não deve alterar a pasta caso eleito). Preferiu tratar das condições dos teatros (que já estão sendo reformados). Aquino apenas defendeu o governo Papa: o Teatro Guarany foi entregue em menos de dois anos, e o Teatro Coliseu atrasou anos na gestão do antecessor Beto. Daí, aproveitou e prometeu entregar o Teatro Rosinha Mastrângelo, além de garantir que Santos fará aderirá ao SNC em breve.

JORNALISTAS QUESTIONAM CANDIDATOS. Dessa vez, alguns prefeituráveis responderam vagamente as perguntas. Sobre novas atividades do calendário permanente de cultura, Nelson de novo enfatizou uma gestão participativa, sem propostas. Repetiu-se a pergunta ao Aquino, que disse em fazer mais parcerias com o setor portuário e que os royalities do Porto sejam revertidos em cultura, falou de cursos de capacitação (o próprio governo já mantém cursos) e criar um polo audiovisual na Cidade para gravar produções (esqueceu do papel do Santos Film Comission). Porém, não comentou sobre novas atividades no calendário.

Aliás, sobre consolidar um pólo audiovisual, Fabião respondeu de forma genérica, novamente enfatizando uma prefeitura transparente, só que não propôs como. Ao ser questionada a levar arte às regiões mais afastadas de Santos, Telma reafirmou a criação de Centros Culturais (apesar de já haver equipamentos públicos e comunitários ociosos na questão cultural nessas regiões) e garantiu transformar a Praça dos Andradas em tão artística quanto a Praça Roosevelt (não comentou quais ações tomaria para isso ser possível).

Sobre as ações no Centro Cultural Patrícia Galvão, Eneida respondeu em priorizar a moradia na área do Centro (Vila Mathias é um bairro predominantemente comercial). Sobre um nome à pasta da Secult, Luiz Xavier lançou a pergunta ao Concult (apesar de seu plano de governo destacar o nome de Tamiris Rizzo no segmento cultural). Aliás, ao falar de fazer arte popular ao trabalhador, exemplificou que a Cidade perdeu o Festival Música Nova (que é de arte erudita).

Para responder como unir artes e educação, Jama respondeu em implantar a disciplina da Filosofia no Ensino Fundamental. Por sua vez, sobre transformar Santos em um município criativo, Paulo Alexandre citou de novo o Mercado Criativo e nenhuma proposta nas outras áreas da Cidade. Beto foi na contramão dos outros candidatos: não prometeu novos equipamentos, mas saber manter os já existentes e ociosos com programação permanente. E foi sincero ao responder a pergunta se faria fazer cinemas de rua ou itinerantes na Zona Noroeste: para ele, primeiro precisa saber se teria público no local. Ele afirmou que houve pouco interesse em um projeto implantado por ele em 2003. Verdade seja dito, embora haja esforço do Curta Santos e do poder público, até mesmo as sessões gratuitas em pontos da região pouco interessaram a população durante a semana.

ARTISTAS QUESTIONAM CANDIDATOS. Neste bloco, o Paulo Alexandre complementou a ideia do Beto e garantiu uma programação permanente de atividades em espaços públicos ociosos. Mesmo dizendo que há poucos terrenos desocupados em Santos, Beto fez uma promessa em achar um local para espetáculos e escola livre de circo e respondeu às acusações de perseguição à cultura (proibição de teatro de rua, carnaval e ameaça de fechamento da Secult) como apenas observância à Lei. Eneida fez mais garantias: um Concult deliberativo, entrega de espaços públicos a companhias artísticas, o fatiamento do Facult em editais específicos de cultura para cada segmento e ocupação de praças públicas.

Sobre a valorização do arte-educador, Telma respondeu se comprometendo em apoiar a classe artística, em promover cursos de aperfeiçoamento (em Santos, alguns cursos livres gratuitos não têm muito embasamento teórico) e novamente falou dos CEUs (e de novo não diferenciou-os dos centros existentes). Na questão do Carnaval, Aquino defendeu a profissionalização dos artistas em sua gestão (o movimento foi reaberto há poucos anos na Cidade), porém, cobrou responsabilidade dos dirigentes da Liga: as agremiações não podem fazer só desfile, mas ações artísticas continuadas que envolvam a comunidade.

Por sua vez, outros candidatos novamente não fizeram propostas. Nelson Rodrigues disse que falta incentivo ao audiovisual e que articularia verbas junto aos níveis estadual e federal para a cultura (nada diferente do compromisso mínimo e habitual de um prefeito). Luiz Xavier generalizou a valorização ao artista e a arte popular sem voltar-se ao turismo ao garantir um evento musical aos moldes do Festival Internacional de Campos do Jordão (de arte erudita especificamente no inverno, onde há efervescência de estrangeiros no município). Fabião se opôs: a cultura sendo identidade de Santos pode gerar retorno financeiro, mas pouco se aprofundou em como fazer isso. Neste bloco, Jama deu a pior resposta. Questionado se criaria uma assessoria pública para capacitar artistas a participar de leis de incentivo fiscal, respondeu que a Secult já deve saber as leis de incentivo fiscal (e como assistenciar os artistas?).

No último bloco, a valorização do artista local e da arte caiçara foram o mote das considerações de praticamente todos os prefeituráveis – o Aquino garantiu fazer uma Virada Caiçara. Além dele, poucos assumiram novos compromissos. A Telma reafirmou o seu contato com a atual ministra da Cultura Marta Suplicy e com a presidente Dilma Rousseff (ambas do PT) para reverter royalities à cultura. Já Fabião garantiu destinar a Secult para um prédio específico, longe da atual sede (Centro Cultural Patrícia Galvão). O Paulo Alexandre foi o autor da última gafe: levar arte para os 280 mil Km², área insular de Santos (cadê as atividades culturais na área continental?).

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