Poesia da América Latina e as editoras “cartoneras” no Sesc Santos

Leitura de autores latino-americanos inéditos em português, lançamento de traduções e uma conversa sobre os 10 anos da editora Eloisa Cartonera (Buenos Aires) e o fenômeno das editoras “cartoneras” (que utilizam papelão na confecção das capas) são as atrações literárias desta quinta-feira (16), no auditório do Sesc (Rua Conselheiro Ribas, 136/Santos), a partir das 20 horas. O encontro “Poesia da América Latina – Aproximações / Acercamientos” será conduzido pelo jornalista e ensaísta Alessandro Atanes, mestre em História Social, que apresentará jovens autores da cena independente no continente inéditos em português. Ele terá como convidado o poeta e editor Ademir Demarchi, que falará sobre a multiplicação deste formato de difusão do livro e da leitura.

Além das leituras, Atanes, que vem traduzindo textos do espanhol desde 2005, lança em um volume a tradução de dois livros do poeta Javier Heraud (1942-1963), ainda não publicados no Brasil: “Viagens imaginárias” e “À espera do outono”, ambos lançados postumamente, em 1964. Demarchi publica em livro dois contemporâneos até então sem edições no Brasil: “Berlim”, de Victoria Guerrero Peirano, peruana de Lima como Heraud, nascida em 1971, autora de 4 livros de poesia e editora da revista de cultura e política Intermezzo Tropical, que também publicou o livro originalmente em 2011; e “As palavras do Rímac”, sobre o rio que corta a capital peruana, do mexicano Felipe Mendoza, nascido em Sinaloa em 1968.

Os livros são publicados pela primeira editora “cartonera / catadora” da região, a Sereia Ca(n)tadora, criada por Demarchi. O primeiro livro da editora foi lançado em novembro de 2010, “Vuelo de identidade / Voo de identidade”, de mais um peruano de Lima, Óscar Limache, também com tradução de Atanes. As capas, pintadas individualmente, foram feitas pelos dois com a ajuda do poeta Paulo de Toledo e de Carmen Brandalise, sistema artesanal que permitiu há dez anos, durante uma das mais pesadas crises que se abateu sobre a Argentina, que poetas e catadores de papel da região metropolitana de Buenos Aires se unissem. Com poemas de um lado e papel e papelão (cartón) do outro, criaram trabalho e deram assim início a essa aventura literária.

Além da obra de Limache (que, por sua vez, traduziu Demarchi e outros para o espanhol), serão lidos e comentados poemas de José Manuel Barrios (1983, Montevidéu, Uruguai), Javier Raya (1985, Cidade do México, México), Osvaldo Picardo (1955, Mar del Plata, Argentina) Leônidas Lamborghini (1927, Buenos Aires, Argentina), Liliana Cabrera (1980, Buenos Aires, Argentina), Paula Ilabaca Núñez (1979, Santiago, Chile) e Olga Leiva (1981, Lund, Suécia), entre outros autores que Atanes está traduzindo e publicando em português na internet, no site http://www.portogente.com.br, onde mantém a coluna Porto Literário, e no blog Revista Pausa, nos quais também publica seus ensaios sobre as relações entre História e Literatura e uma reportagem recente sobre os 10 anos da Eloisa Cartonera.

Mais traduções. No momento, Atanes está terminando a tradução de outro livro de Limache, “Viaje a la lengua del puercoespín” (Viagem à língua do porco-espinho) e começa a tradução do romance “Gordo”, de Sagrado Sebakis, que conheceu na Feira do Livro de Buenos Aires, em maio. O capítulo final do romance, que também será lido no Sesc Santos, está também na internet.

Nova Diplomacia. Além da difusão de autores que, apesar da qualidade, dificilmente seriam publicados por editoras comerciais, o contato entre Demarchi e Atanes, desde Santos, e Limache e Victoria Guerrero em Lima, além de Sebakis em Buenos Aires, entre outros, tem um aspecto além do literário, que é o de estabelecer, ainda que em pequena escala, uma “Nova Diplomacia”, conceito cunhado pelo assessor de Defesa e Diplomacia do governo Bill Clinton (EUA), Joseph Nye, aquela feita também por meio das trocas culturais, da tradução e da ação intelectual e artística.

“Um exemplo, para que possamos ter uma medida, é o número de livros trocados entre Santos e Lima. Eu estimo, por baixo, uns 400 livros entre livros que eu, Ademir e Márcia Costa trouxemos de Lima em duas viagens e, responsável por mais da metade desse PIB literário, o que o Óscar Limache levou para lá. Lógico que boa parte está nas estantes de cada um, porque é tudo nossa iniciativa, mas foram livros também para as bibliotecas públicas de região, sem contar que dividimos um pouco os livros nesses encontros. Limache diz que somos a Embaixada Literária de Lima em Santos”, conclui.

O próprio poeta esteve na região em novembro de 2010 para o lançamento de sua obra em português. Não havia um mês que Mario Vargas Llosa havia ganhado o Prêmio Nobel de Literatura e os públicos de Santos e Cubatão puderam presenciar duas conferências sobre a literatura peruana feitas por Limache, que é também professor.

*Alessandro Atanes/Márcia Costa

 

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