Lolita Rodrigues é grande homenageada do 16º Fescete

Sob uma imensa chuva de aplausos, Lolita Rodrigues, aos 83 anos, recebeu a primeira homenagem de sua carreira durante a cerimônia de abertura do 16º Fescete – Festival de Cenas Teatrais. Tendo como tema ‘Uma ode ao humor no centenário de Mazzaropi’, o evento ocorreu no Teatro Braz Cubas na noite desta sexta-feira (15), contando com a calorosa acolhida do público.

De pé, com as mãos repousando acima da bengala, a atriz entoou cantigas da adolescência, quando revelada no rádio: “Alegres vivemos como na mata vivia o sabiá, e isso devemos à nossa querida Didinha Sinhá”. Bem-humorada, Lolita fez jus à homenagem em um festival que celebra a comédia: “Brinco até hoje. Quando vejo um rapaz bonito na rua, digo, ‘você não que passar lá em casa no Natal, pra comer nós?'”.

Apesar de afirmar que a melhor idade é a juventude, Lolita mostra que o sorriso supera qualquer expectativa de vida. Entre risadas, “hoje estou na idade do condor. Com dor aqui, com dor ali”. Após três anos sem aparecer em palcos, televisão ou cinema, ela critica a qualidade das produções nas telinhas: “Posso dizer que sou espectadora, mas me sinto hoje uma ‘vidiota'”.

A grande homenageada do festival também falou do seu profundo respeito pelo teatro, “que além da música e da pintura, é a arte mais verdadeira, onde você aprender a falar, a pensar melhor”. Ela define o artista como um vendedor de sonhos e aconselha quem está na carreira sobre a humildade: “Não existe papel pequeno. Pequeno é quem não aceita o tal papel pequeno”.

A atriz santista recebeu o prêmio de André Luiz Mazaroppi, filho do humorista com quem contracenou no filme ‘Nhá Carola’ (1956). “Meu pai tinha uma paixão incondicional por Santos. A primeira vez que ele veio foi aos 19 anos, e, desde então, o grande lazer dele era vir a Cidade e ir aos dois teatros da época [Guarany e Coliseu] e comer peixe nos restaurantes daqui”, comenta o também humorista André.

A cerimônia de abertura foi apresentada pelos jornalistas da TV Tribuna, Vanessa Machado e Tony Lamers, bastante descontraído. No palco, além dos parceiros do festival, também estiveram presentes o casal que idealizou o Fescete, Pedro Norato e Karla Lacerda.

Norato enfatizou o coletivo de artistas da Região: “Temos uma equipe de mais de 70 pessoas que estão trabalhando em prol do nosso festival. Queremos compartilhar todo o sucesso que conquistamos com vocês”. Por sua vez, Karla comentou sobre o tema e a história da resistência do teatro paulista, e ofereceu o festival à Lolita, Mazzaropi e dois saudosos artistas de Santos, Zéllus Machado e Ricardo Monteiro.

Entrevista. Nascida em Santos, a atriz Lolita Rodrigues se revelou feliz por ser homenageada no Fescete.Em entrevista realizada por telefone, Lolita falou sobre sua trajetória artística, iniciada bem cedo, aos 10 anos, bem como a emoção de ser homenageada na cidade onde deu seus primeiros passos.

Você começou a carreira bem cedo, não foi? O que lembra desse comecinho, e como foram os anos do rádio? Sim, comecei com 10 anos incompletos, cantando como caloura na Rádio Atlântica de Santos. Era uma criança muito pobre, e também muito alegre. Lembro que achava tudo maravilhoso, e nessa estreia fui com o melhor vestido que tinha. Morei até os 13 anos no Marapé, na Rua Carvalho de Mendonça. A casa está até hoje lá. Depois nos mudamos para São Paulo, e passei por rádios como a Bandeirantes, a Cultura e a Rádio Tupi. Conhecíamos as celebridades somente pela Revista do Rádio, era muito diferente de hoje.

Você cantou o Hino da Televisão na inauguração da TV Tupi, em 1950. Como foi participar de um momento histórico como esse, dos primeiros anos da televisão? Era uma aventura! Tinha 21 anos, e usei naquele dia o vestido da minha formatura. Ninguém sabia muito bem o que fazer, porque era tudo muito novo. Ali conheci os intelectuais que foram os pioneiros da TV brasileira, como o Cassiano Gabus Mendes, que dirigiu a primeira transmissão, o Walter Jorge Durst e o Túlio de Lemos, que fizeram grandes trabalhos. No começo, a maioria dos programas da TV vinham do rádio, como a Escolinha do Ciccilo. Meu marido, Airton Rodrigues, que conheci na televisão, foi o primeiro cronista de TV. Só tive a dimensão do que tinha sido aquilo no dia seguinte à primeira transmissão, quando entrei no ônibus e fui reconhecida. Aquilo me surpreendeu muito. Em geral não sabíamos o que fazer, levávamos as roupas e os objetos de cena, porque não havia produção para isso. Ganhávamos muito pouco, e a televisão era um aparelho caro, que pouca gente tinha. A minha própria TV foi parcelada em várias prestações.

Até então você ainda era cantora, e tinha o sonho de ser atriz. Como foi que começou a atuar, e ter uma carreira tão extensa fazendo o que sempre quis? As grandes estrelas da TV vinham do teatro, então comecei com papéis bem simples, abrindo porta, tendo participações rápidas. O primeiro papel de destaque foi a Esmeralda, na série “O Corcunda de Notre Dame”, em 1957. Era às terças e sextas, ao vivo, então não podíamos errar! Sempre tinha alguém com o script atrás do cenário, ou deitado no chão segurando os papéis para não perdermos as falas. Antigamente os atores conviviam bastante, lembro que todo mundo morava no Sumaré, bairro onde era o estúdio, éramos muito amigos. Hoje os atores ficam juntos por sete, oito meses, durante a novela, mas não existe muita amizade além desse período. Fiz muitos amigos, hoje poucos estão vivos, o que me deixa com muita saudade. Com quem ainda tenho contato, daquela época, é com a Hebe Camargo, a Vida Alves… A Nair Bello, que morreu em 2007, também era muito amiga, me dá uma dor no peito enorme quando lembro dela.

Você chegou a fazer cinema e teatro? E ainda pensa em atuar na TV? Não penso mais em atuar, é muito cansativo para mim, ter que viajar até o Rio, passar meses lá. No cinema fiz o filme “Quase no Céu”, do Oduvaldo Viana, um preparativo para a TV Tupi, que na verdade foi uma farra de todos nós. Não fiz teatro porque meu marido não deixava. Eu trabalhava a semana inteira na TV, e mal ficaria em casa se fizesse teatro nos fins de semana.

O que acha dessa homenagem do FESCETE em Santos, cidade onde nasceu, comemorando ainda o Centenário do Mazzaropi? Fico muito comovida com a homenagem! Quando fui convidada havia sofrido um acidente, e em junho teria que ir para João Pessoa, ficar com a minha filha, mas logo me animei a ir para Santos. Fico feliz por lembrarem de mim, ainda mais por ser na cidade onde nasci. Sobre o Mazzaropi, ele era uma pessoa maravilhosa, muito bondosa. Gravei com ele a marcha “Nhá Carola” [de Hudson Gaia “Petit”, em 1956], e a respeito disso tem um episódio engraçado: quando ele me convidou para cantar, disse assim: “Lolita, nós vamos cantar a música, só que você tem que cantar muito mal!”.

Leia aqui o perfil de Lolita Rodrigues | Leia aqui a programação do 16º Fescete

*Curta Santos/Fescete

2 pensamentos sobre “Lolita Rodrigues é grande homenageada do 16º Fescete

  1. Foi uma grande noite, conhecer Pedro Norato e Carla e a presença de Lolita Rodrigues com quem tive a honra de Cantar junto com meu pai Mazzaropi a musica NHÁ CAROLA; GRAVADA POR AMBOS em 1.956; Quando ambos trabalharam na Radio e TV TUPY – São Paulo 1.946 á 1.952.

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