Em bate-papo no Sesc Santos, Rubens Ewald Filho trata de carreira, cinema e Oscar

*P.S.: As duas primeiras fotos pertencem ao atento Rafael Ponzio!

A arquibancada montada no auditório do Sesc Santos dava para 150 pessoas, público menor que as expectativas de estudantes e cinéfilos diante de um televisor de 27 polegadas. De costas para a tela anunciando o Festival Sesc Melhores Filmes 2012, Rubens Ewald Filho, principal crítico de cinema no Brasil, conversava com 220 fãs.

Tiveram que distribuir almofadas azuis, laranjas, verdes e vermelhas para acomodar tanta gente. Uma surpresa agradável para o crítico ao retornar à sua cidade de origem após dois anos. “Confesso que me sentiria rejeitado se não tivessem aqui, porque aqui é minha terra, terra da gente. É aqui que tudo começou. E quero retomar o contato com a Cidade a partir de hoje”.

Nas duas horas de bate-papo, a plateia e o mediador André Azenha (editor do CineZen Cultural e CulturalMente Santista, trabalhou como assistente de Rubens entre 2008 e 2009) conversaram com um Rubens intelectual e tímido demais, características típicas dos geeks contemporâneos. Ele até avisa antecipadamente os espectadores quando soltará um palavrão. Em tom reservado, o crítico fazia confissões durante o período com as duas mãos entrelaçadas no microfone.

Entre os segredos, sem melindres, revelou que detesta assistir a si mesmo, e que também interpreta, de certa forma, um personagem na vida pública – apesar de garantir ser esse o mais próximo de si mesmo. E vê graça do medo das pessoas em se aproximar dele: alto demais, ainda por cima crítico, quem diria que ele seja simpático?

Na breve apresentação, Azenha comentou que Rubens tem 67 anos, logo cortado aos risos pelo crítico: “Devia ter mudado esse pedaço, não?” Nascido em Santos, crescido mais especificamente na eterna Rua do Sol (atual Rua Barão de Paranapiacaba), despontou como um raio para sua paixão: as artes cênicas. “Quem ama o cinema, ama a vida”.

“Saí de Santos com a ideia de fazer cinema. Como crítico, você não precisa saber bem aquela arte, mas precisa saber como ela é feita, qual seu processo”. Ele assistiu a 32 mil filmes (o catálogo disponível na tradicional Vídeo Paradiso é de 11 mil títulos) e escreve para mais de 20 veículos. Entre eles, o badalado blog no Portal R7 e, na Região, no jornal A Tribuna.

“Escrevo sem preconceitos. Minha linguagem é conversando com as pessoas. Talvez não concorde com meu texto, mas tento polemizar os filmes”. Um dos jornalistas pioneiros em nossas terras a levantar a bandeira do cinema, Rubens diz que foi muito perseguido por opinar abertamente sobre os filmes. Foi justamente num texto polêmico publicado no Jornal da Tarde (São Paulo), que foi reconhecido nacionalmente. “No Brasil, precisa de um escândalo para ser famoso”, gargalha em seguida. “Com o passar do tempo, percebi que, nas críticas, é melhor construir do que destruir. Se indicar o porquê, justificando-se, mostrando uma alternativa, a gente contribui melhor com o trabalho dos outros”.

Decadência cultural? – Rubens também afirma que o cinema está cada vez mais indústria e menos arte – faltam ideias para bons roteiros nas telonas. “O que sinto falta é das pessoas discutirem ideias. O cinema hoje em dia não tem propostas como antigamente, no cinema francês e italiano”.

Segundo o crítico, os roteiros de TV estão melhor do que o do cinema nacional (e internacional), até porque não estão condensados em tramas de duas horas. A criatividade dos seriados nacionais também se deve, por exemplo, à Rede Globo manter 200 roteiristas. “Eles estão certos, pagam por cabeças pensantes para fazerem as melhores obras na tevê”.

Ele também relacionou as poucas propostas dos filmes nacionais como reflexo da falta de uma boa formação musical e literária hoje em dia. “Não cobrem tanto assim do filme nacional”. Sem falar de que o brasileiro assiste, em média, a dois filmes no ano, e produz poucos longas-metragens. Em termos de comparação, os hermanos argentinos produzem 70 filmes e vão, de costume, há quatro sessões por anos – sem contar no maior número de público em teatros, óperas e livrarias. “É um país mais rico culturalmente”.

Amante do cinema italiano – para ele, o mais perto da cultura brasileira -, desde o neorrealismo até a década de 70, em especial, das obras de Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica. Porém, desde que assistiu ‘Houve uma Vez um Verão’, preferia ser dirigido por Robert Mulligan. Mesmo considerando-se saudosista, evidenciado ao usar relógio analógico em plena era digital, o crítico ainda não acredita que as estrelas atuais são piores intérpretes do que os antigos deuses do cinema.

Oscar – É impossível não se lembrar do Rubens comentando o principal festival da sétima arte: o Oscar. Já fez relatos na Globo e na SBT em TV aberta, e, atualmente narra a cerimônia na TNT. “No Oscar, decide-se a política que a Academia considera melhor para a indústria do cinema. Não veem o filme como arte, mas como entretenimento”.

“O grande feito do Oscar é que ele é honesto e também injusto”. Para o crítico, os votantes elegem, muitas vezes, não para fazer justiça, contudo, pela simpatia com os concorrentes. Enquanto seu ator predileto, o italiano Marcello Mastroianni, jamais recebeu um Oscar, a Meryl Streep foi laureada três vezes. “Não tem como não se apaixonar por ela, é bonita, simpática, despretensiosa. Ela é o modelo que todas as atrizes querem alcançar”.

Ele também afirma que a categoria mais difícil é a de Melhor Filme Estrangeiro. “Na verdade, seria a de Melhor Filme em língua não-inglesa”. Pirmeiro, porque são os países que indicam seus próprios títulos (Rubens fez parte do júri brasileiro por quatro anos), segundo porque a seleção da Academia é feita por duas comissões – uma complementa a outra. E terceiro porque a votação é feita pela simpatia dos eleitores com os longas-metragens: não são indicados os melhores filmes, são selecionados os que têm chance de agradar a Academia.

Nas relações internacionais do prêmio, Rubens diz que a Academia estadunidense sempre foi anglófila: eles anseiam em ser britânicos, já que a Ingalterra tem uma formação cultural melhor que os Estados Unidos. “Não é a toa que lá existem as melhores universidades do mundo”. Como exemplo, os estudantes ingleses se aprofundam em Shakespeare, que, no texto original, os personagens respiram a partir de uma métrica perfeita dos versos.

De antemão do circuito do cinema no Brasil, Rubens se prepara para a cerimônia meses antes. Viaja anualmente a Los Angeles, hospeda-se na casa de uma amiga votante do Globo de Ouro e assiste por uma semana todos os filmes concorrentes disponíveis em DVD. Alguns são vistos nas telonas, como ‘A Invenção de Hugo Cabret’ e ‘O Artista’. O crítico visita os Estados Unidos desde que ganhou há dezenas de anos uma bolsa de estudos para ir ao Festival de Nova Iorque. Desde então, cobre vários festivais: “Fui por 24 anos cobrir Cannes”.

Início de carreira – Rubens tem um currículo vasto pelas artes, mesmo tendo um azar de principiante. “Um dia ainda farei um stand up sobre a minha história e a do cinema, só preciso saber o timing”. O primeiro curta-metragem universitário não consta mais no acervo da faculdade santista, um dos primeiros filmes que atuou foi ‘Amor Estranho Amor’ (de 1982, em que há a cena polêmica de amor entre Xuxa e um adolescente), a primeira peça teatral que dirigiu perdeu os direitos da obra e uma das primeiras novelas que escreveu foi a última da TV Tupi: ‘Drácula, uma História de Amor’ (1980).

Aliás, a novela teve que ser continuada na TV Bandeirantes. Já que os cinco primeiros capítulos foram transmitidos na TV Tupi, no fim-de-semana escreveu sete capítulos para continuar a ser rodado na emissora concorrente. Rubens tem facilidade na escrita e o rigor em suas pesquisas com Sílvio de Abreu lhe rendeu um das melhores obras na teledramaturgia nacional: ‘Éramos Seis’ (1977). As histórias descritas na TV Tupi durante a novela eram tão exatas que os censores não podiam cortar as cenas. O sucesso garantiu o remake no SBT, em 1994. “Imagina, eu consegui vender uma novela ao Sílvio Santos”, comemora ao afirmar ser fã do empresário-comunicador.

Entre tantas atividades e façanhas no meio artístico, o cinéfilo Rubens Ewald Filho se emociona mais no bate-papo quando dois artistas brasileiros premiados no Festival de Paulínia contaram a ele: “Foi você quem nos inspirou a fazer cinema”.

Anúncios

Um pensamento sobre “Em bate-papo no Sesc Santos, Rubens Ewald Filho trata de carreira, cinema e Oscar

  1. Pingback: CulturalMente Santista » Rubens Ewald Filho: retorno triunfal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s