‘O Gabinete do Dr. Caligari’ é exibido no Cine 3D

Nesta sexta-feira (24/fev) haverá a exibição gratuita do filme ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, às 19h30 no Cine 3D (Biquinha/São Vicente), promovido pelo Projeto Cineclubismo. O Foto Clube de São Vicente – O Frame tem o objetivo de aprimorar o olhar dos fotógrafos e amantes de fotografia através dos filmes exibidos no local quinzenalmente. Produzida em 1920, a película é um dos grandes expoentes do Cinema Fantástico.

Crítica – Alexandre Koball. Um dos filmes mais importantes da história do cinema. Um influenciador de gerações. Um trabalho que marcou época e é assistido com veemência até os dias atuais. Este é O Gabinete do Doutor Caligari, filme alemão de 1920 que, hoje, não tão longe de completar um século de existência, mostra-se completo e mais interessante que… bem, que quase tudo lançado atualmente. Infelizmente este é um filme ainda raro de se achar (só não mais porque o mercado de DVD realmente está enorme), e há várias versões do filme, que variam muito de duração. A versão em questão aqui é a menor delas: possui apenas 51 minutos, enquanto existe uma versão francesa com cerca de 78 minutos.

A história, para situá-lo: o doutor Caligari é um médico que viaja por feiras de aberrações e afins com o sonâmbulo Cesare (uma figura assustadoramente bizarra) que, segundo ele, está há 23 anos dormindo. Sua próxima apresentação é numa pequena cidade na fronteira com a Holanda. Na primeira noite de sua exibição, Cesare é acordado por Caligari e faz uma previsão pessimista para um dos espectadores: ele morrerá na noite que está chegando. Sua previsão é certeira, e a morte do homem está relacionada a uma série de crimes de assassinato no local. Cesare e Caligari são logos vistos como suspeitos, obviamente. O resultado final é inesperado: os motivos pelos quais as coisas acabaram acontecendo formam um dos primeiros finais-surpresa do cinema, que é melhor explicado através de flashbacks de forma magnífica.

O filme é considerado pela grande maioria dos entendedores de cinema como o primeiro do gênero terror. Com cenários escuros e medonhos (mais sobre eles mais para frente), trilha sonora bem realizada (mais sobre ela mais para frente) e maquiagem inspirada para o obscuro, pode render bons calafrios. Cesare é um personagem que consegue passar uma forte impressão sem sequer abrir a boca durante todo o filme. Seu olhar é congelante, seus movimentos frios. É por causa dele que o filme é pertencente a tal gênero. Caligari é seu manipulador, claro, mas a marionete é a personagem assustadoramente bizarra nesse caso.

Conrad Veidt, ator que interpretou Cesare, possui enorme filmografia. Depois de Caligari, repetiu inúmeras vezes papéis parecidos, representando personagens tenebrosos. Morreu cedo, aos 50 anos, nos Estados Unidos, em 1943. Naquele mesmo ano teve seu último filme lançado, Above Suspicion, uma obra dirigida por Richard Thorpe (diretor que filmou cenas de O Mágico de Oz, que mais tarde foram jogadas fora). Para Conrad, sua carreira foi o famoso e tão comum caso de reprisar o seu papel de maior sucesso muitas e muitas vezes. Já Werner Krauss atua como um  lunático, alguém de duas caras. Seu personagem é mais complexo que Cesare, segredos e falsidade estão dentro dele e sua expressão, quando outros personagens lhe dão as costas, demonstram bem isso.

Embora tenha personagens notáveis, o maior marco do filme foi ter inaugurado no cinema o movimento conhecido como “Expressionismo Alemão”, que durou de 1919 até 1924, mas influenciou gerações após esse período. É bem evidente o estilo do filme: ângulos irregulares nos cenários (em sua maioria construídos de papel, com sombras pintadas), formas esquisitas, desproporcionais, maquiagem forte, gestos exagerados por parte dos atores, expressões fortes, enfim, são características que deram ao cinema novas possibilidades, novos sentidos, um clima mais misterioso. O Gabinete do Doutor Caligari (juntamente com outros filmes, como Nosferatu, de F.W. Murnau) influenciou inúmeros outros diretores mais para frente, como Fritz Lang, que lançou Metrópolis e M – O Vampiro de Dusseldorf com essa linguagem visual. Lang, aliás, foi cogitado a dirigir este filme, porém acabou escolhendo outro trabalho. Robert Wiene, então, pegou o cargo.

Outra característica marcante do filme é sua excitante trilha sonora. Nos momentos mais tensos, ela consegue criar uma magnífica conjunção com as imagens. O ataque do assassino a uma mulher, por exemplo, é contemplado com uma música que serve para criar um clima ainda mais tenso, quase de gelar a espinha. Claro que para conseguir absorver tal sensação é necessário uma certa doação por parte do espectador, que atualmente pode ser tão facilmente distraído caso não encontre rapidamente sustos articificais (99% dos filmes de terror atuais apenas apresentam sustos desse tipo).

Infelizmente, como já foi comentado, a versão que assisti é a menor das conhecidas. Faz parte de um pacote sobre o Expressionismo Alemão lançado por uma distribuidora de DVDs nacional, a Continental Home Video. O filme acaba perdendo bastante, muitos personagens são mal desenvolvidos (a noiva, por exemplo) e, claro, fica-se a pensar o que mais teríamos para assistir além do já apresentado. É normal filmes tão antigos terem várias versões, muitos deles sofriam pressão de autoridades para terem partes cortadas ou censuradas – isso acontecia até há muito pouco tempo, imagine então naquela época. Eventualmente pode ser que seja lançada aqui uma versão integral ou pelo menos uma maior desse que é um clássico absoluto, um dos filmes responsáveis por construir a história do cinema. O primeiro filme de terror!

*Cineclube O Frame/Cineplayers

 

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